Papel do professor na sociedade atual
Estamos em 2026 e já ninguém se lembra como era viver sem telemóvel. Quando tento explicar aos meus filhos que só tive telemóvel praticamente quando entrei na faculdade, eles olham para mim sem conseguir perceber muito bem do que estou a falar. É verdade que já passaram 25 anos, mas é ainda mais impressionante o que o nosso mundo mudou. Hoje as crianças têm cada vez mais cedo acesso a dispositivos eletrónicos, que estão feitos de forma intuitiva para que os pais possam delegar gratuitamente tempo de educação. Não são todos, mas acho que, de uma forma ou de outra, todos nos revemos no que vou apresentar.
Depois dos telemóveis e da internet, a internet no telefone e, mais recentemente, a inteligência artificial. Está tudo muito evoluído e a reputação dos professores tem, infelizmente, crescido de forma inversamente proporcional às tecnologias. No tempo dos meus pais ninguém ousava contrariar um professor, o professor sabia tudo e era a base do conhecimento.
Os tempos mudaram e, de
repente, todas as pessoas começaram a saber mais do que os professores. Quando
o Covid iniciou, parecia-me que essa opinião seria revertida, porque as pessoas
pareciam finalmente valorizar o complexo e difícil trabalho de se ensinar e
tive esperança de que os pais voltassem a reconhecer o enorme valor dos
professores, mas não aconteceu. Não digo que não haja quem valorize, mas o que
vejo à minha volta é uma desvalorização completa do papel do professor e, mais
grave ainda, do valor das apreciações do professor.
Quando dou pedagogia na
faculdade tento que seja de forma interativa, para que os alunos consigam ir
percebendo como devem futuramente dar aulas. Tenho-me apercebido que os alunos
comentam muitas vezes que é muito básico e às vezes reconheço mesmo que até
pareça. Faz tanto sentido para mim que as explicações acabam por ser muito
básicas, como se estivesse a explicar a uma criança. Quando pergunto se
perceberam dizem que sim. Quando peço para me explicarem retiveram uma frase em
cinquenta. Mas como têm acesso à inteligência artificial e como todos nós já
andámos na escola e percebemos no que consiste o trabalho do professor, o
conteúdo parece “senso comum” e a sensação que têm é que já sabem dar aulas e
ser professores.
Se fico escandalizada
quando vivencio isto de perto fico ainda mais “banzada” quando percebo que isto
é a forma de estar de muitos pais. Um professor, salvo raras exceções, foi uma
pessoa que estudou para ensinar, com o objetivo genuíno de fazer com que os
alunos aprendam. É difícil, muito mais complexo do que qualquer curioso possa
pensar.
Nem todos os alunos são
estupendos e não se cria genuína empatia com todos, mas um excelente professor
irá focar-se na progressão do aluno, não fazendo diferenciação de tratamento
entre alunos. Quando vejo pais, que simplesmente opinam relativamente aos
professores, de acordo com as notas ou os comentários que eles dão aos seus
filhos, pergunto-me para que mundo caminhamos. Nunca tivemos tantos entendidos
em educação, ainda mais com acesso a inteligência artificial, e nunca foram
tantos os alunos a ter problemas educativos: comportamentais e mentais.
Não chega desculpar os
filhos, educar obriga a despender tempo e a exigir. A Pedagogia pode ser vista
como um assunto “básico”, mas para isso ser uma realidade tem de se ler muito,
de muitos autores, sobre o tema. As notas dos vossos filhos não são vossas, são
deles. Claro que queremos estar orgulhosos, mas, mais do que as notas, queremos
partilhar orgulho no que eles são e adquirem. Professores exigentes ajudarão
muito a desenvolver as capacidades dos alunos de forma holística, portanto, da
próxima vez que comentarem sobre um professor, reflitam bem no que vos
incomoda: se a pessoa em si, se o facto de ter dado nota baixa ao vosso filho
ou se efetivamente é alguém que não ensina.
A educação e o
desenvolvimento escolar dos vossos filhos têm de resultar de uma excelente
parceria entre os pais e os professores e, mais do que uma boa nota, o que
conta verdadeiramente é a aprendizagem que os mais pequenos adquirem a longo
termo a todos os níveis. Os meus filhos têm a sorte de ter excelentes
aprendizagens, e os vossos?
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